Parada

Um dia comum. Atribulado. Corrido. Visitar pacientes, resolver pendências, orientar pessoas. Encaminhar exames, cobrar resultados, esquecer de comer. Sorrir. Respirar.

Aí vem o grito. Pensa rápido. Parada cardíaca. Encontrar o médico. Aonde está o médico? Aonde está o pulso? Puxar o carrinho. Retirar o familiar do quarto. Encontrar alguém para acalmar o familiar. Ligar o desfibrilador. Colocar oxigênio. Iniciar massagens cardíacas. Agora o quarto está cheio. Tem barulho, muita coisa acontecendo. Aspirar adrenalina. Marcar os minutos. Olha o monitor. Médico intuba. Não para a massagem. Afastar. Choque. ele voltou. Vaga na UTI. Parar o elevador. Levar para a UTI. Arrumar papéis. Chamar a família. Passar plantão. Bater o cartão, sair pelo portão.

PCR

Chega o silêncio. A dor no corpo. Entro no carro e choro. Choro revendo todos os momentos, cada passo. O que foi bom, o que pode melhorar, o que tem que melhorar. Quem sou eu para viver esse tipo de emoção?

Depois de 8 anos cuidando de pessoas, eu já vivi muitos momentos de tensão, alegria e tristeza. Em muitos momentos eu não entendo como fui parar ali. Mas em outros, eu sei que é exatamente aonde eu deveria estar, é o que eu sei fazer e é a maneira que eu encontrei para crescer como pessoa e como profissional.

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A Teoria de Tudo

Finalmente, eu assisti A Teoria de tudo. Um filme de amor. Conta a história de Stephen Hawking desde o período de estudante de doutorado, passa pelo descobrimento da sua doença e pelo seu sucesso como físico. Muito interessante também perceber a genialidade do físico e sua vulnerabilidade ao se deparar com os desafios da sua nova condição de vida. O filme é baseado no livro de sua esposa, Jane Hawking.

A-TEORIA-DE-TUDO-

Eddie Redmayne, o ganhador do Oscar pelo papel de Stephen é impressionante. Ele demonstra uma linguagem e adaptação corporal fantástica. Felicity Jones é Jane, a doce e tímida garota que dedicou a sua vida ao cuidado do homem que amava e da família que eles formaram.

A trilha sonora tem muitos elementos de música clássica e eletrônica. O figurino também me encantou. O filme nos leva a reflexão sobre o sentido da vida e a importância de valorizar as pessoas que estão ao nosso lado. Fofo recomenda!

Stephen e Jane na ficção e na vida real

Stephen e Jane na ficção e na vida real

Tempo de Despertar

Neste filme de 1990, Robin Williams vive o Dr. Sayer, um neurologista que nos anos 60, começa a trabalhar em um hospital psiquiátrico. Lá ele começa a perceber que os pacientes, apesar de catatônicos, conseguem ser estimulados com o uso de uma bola de baseball, por exemplo. O médico, diferente de seus colegas, acha que os pacientes estão apenas adormecidos. Ele então decide experimentar uma nova droga, L Dopa, que estava sendo bem aceita em pacientes com Mal de Parkinson.

A diretoria do hospital concorda com esta experiência em apenas um dos pacientes. O escolhido é Leonard Lowe, o personagem de Robert De Niro, que não tinha resposta há 30 anos. Os resultados são impressionantes! Os pacientes passam a despertar e ter curiosidade pela vida e alegria de viver. Porém, Leonard começa a apresentar graves efeitos colaterais que preocupam o Dr Sayer e os próprios pacientes.

Imagem da Internet

Imagem da Internet

O longa metragem é baseado na história real do neurologista Oliver Sacks, com os sobreviventes da encefalia letárgica, patologia que atingiu milhões de pessoas e matou muitas delas na década de 1920.

Dirigido por Penny Marshal, o drama é muito interessante pela demonstração da vontade do médico em ajudar as pessoas e também mostra a equipe de enfermagem como atuante no cuidado. O filme é lindo, motivador e incita uma reflexão sobre a valorização da vida. Fofo recomenda!

Tempo de Despertar

A vida como ela é

As pessoas tem ideias pré concebidos. É fato. Podem não ter a mínima noção sobre determinado assunto, mas tem uma opinião. “Se fosse comigo, isso não aconteceria”. “Naquela situação, eu manteria o controle.” Não importa o que. O julgamento às atitudes alheias é rápido e cortante. Conceitos que viram na televisão, que ouviram da vó ou puro senso comum.

Enfermeiras são santas ou putas. Freiras ou atrizes pornô. Não, somos pessoas como qualquer outras. Temos dias bons e ruins. Nos cansamos, nos alegramos, choramos e rimos. Dormimos pouco, comemos porcarias. Temos bolhas nos pés porque estamos andando de um lado para o outro constantemente. Seguramos para ir ao banheiro porque o tempo é corrido. Não temos feriado ou finais de semana. Deixamos a nossa própria família para cuidar da sua. Não somos melhores e nem piores do que ninguém. Apenas escolhemos viver assim. É um trabalho, com responsabilidades, deveres e direitos.

enfermeira

Não precisamos que ninguém venha dizer como fazer o nosso trabalho. Não queremos ser médicos. Escolhemos ser Enfermeiros. Nosso objeto de trabalho é o cuidado. Estudamos tanto, as vezes até mais, do que outros profissionais da saúde. Conhecemos as doenças, as medicações, os tratamentos. Claro que também precisamos nos atualizar, temos dúvidas e questionamentos. Trabalhamos em equipe. Juntos, complementando o trabalho de outros colegas. Discutimos casos, sugerimos ações e intervenções. Conhecemos os nossos pacientes.

E lidamos com pressão, cobrança, xingamentos, falta de respeito, fluidos corporais, bactérias, cansaço. Tudo isso com os cabelos impecavelmente penteados e o sorriso brilhante.

Sei que este texto é apenas um desabafo. Mas da próxima vez que você precisar de um hospital ou for visitar alguém em um, tenha paciência. Sorria e respeite os profissionais que estão ali. Na verdade, nós também precisamos apenas de um pouco de cuidado e atenção.

maos-dadas

A minha pessoa

Em 2005, eu era uma estudante universitária. Estava começando a entender este mundo da Enfermagem, dos hospitais. E então eles chegaram. Os residentes do Seattle Grace Hospital: Meredith Grey, Izie Stevens, George O’ Malley, Alex Karev e Cristina Yang. Poder ver que aquele grupo de residentes tinha medos e dúvidas tão parecidas com as minhas foi um alívio. E uma diversão.

No começo, eu não gostava muito da Cristina. Seus comentários sempre tão ácidos, a paixão pelo trabalho e os movimentos perfeitos. Seu jeito tão “tubarão” de ser… Aí a amizade dela e Meredith vai aumentando e se torna o relacionamento mais forte do seriado. E então ela define “a minha pessoa”.

Quer uma declaração maior do que essa? Uma amizade cheia de carinho, sarcasmo, dança e tequila. Tão verdadeira e segura. Daquelas que queremos na vida real.

A Drª Yang é mais do que isso. Ela já passou por poucas e boas! Foi deixada no altar, perdeu o pai, sobreviveu a um acidente de avião e ao trauma pós tiroteio, cantou Like a Virgin no Centro Cirúrgico… Sem contar as cirurgias mais complicadas e os desfechos sempre incríveis!

Muitas vezes quando já estava trabalhando na Cardiologia, eu conseguia ligar os casos dela às experiências que eu tinha no hospital. A cirurgiã cardíaca ia se orgulhar da enfermeira aqui!

E no final da 10ª temporada, Cristina se despediu. A atriz Sandra Oh não renovou seu contrato. Apesar disso, ela deu vida a uma das personagens mais emblemáticas da TV americana.Os roteiristas de Grey’s Anatomy vão ter muito trabalho na nova temporada.

E nós, vamos sentir saudades.

Meredith e Cristina

Meredith e Cristina

Dean Karnazes

Li um livro chamado “50 Maratonas em 50 dias: Segredos que aprendi correndo” do ultramaratonista americano Dean Karnazes. Li em apenas dois dias porque eu simplesmente não conseguia parar de me impressionar com a força e a motivação dessa pessoa para cumprir uma rotina tão estressante! Ele deixou um emprego em um escritório para se tornar um atleta profissional, um ultramaratonista daqueles que correm 150 km de uma vez… Eu, que sou uma corredora ainda em preparação para minha primeira meia maratona, me impressionei com a determinação e força de vontade deste homem.

No livro, ele fala sobre um desafio que ele mesmo se impôs: correr uma maratona por dia, em cada um dos 50 estados americanos em 50 dias consecutivos. Algumas provas foram realizadas em datas diferentes das originais para que ele pudesse cumprir seu cronograma. Ele participou de provas pequenas e também de maratonas famosas, como a de Nova York e Boston. Em algumas cidades, Karnazes correu acompanhado de poucas pessoas, em outras ele teve a companhia de milhares de corredores.

As histórias são impressionantes. Ele fala da garota que correu sua primeira maratona e concluiu a prova tendo que vencer seu próprio medo. Fala do japonês que “gastou” sua lua de mel para acompanhar o desafio. Fala das bolhas nos pés, da saudade da família, da dor e do cansaço que ele mesmo precisou enfrentar para concluir essa epopéia.

Não é preciso ser corredor, nem atleta para aproveitar essa leitura. Sim, o livro nos faz aprender muito sobre como ser um corredor mais preparado. Mas também nos faz pensar que podemos nos surpreender com a capacidade que nosso corpo e mente podem ter.

Quando estou correndo consigo deixar todas as preocupações e neuras no chão. Naqueles minutos, em que apenas eu e Deus estamos em contato eu escuto meu corpo e trabalho as minhas dificuldades. Ali não existem pacientes, salto alto, maquiagem… Sou apenas eu. Meu suor. Meus músculos. Eu consigo sentir a minha respiração e penso no movimento, no ritmo das passadas e no objetivo, que é a chegada. Vou usar aqui, as palavras do próprio Dean:

“A maratona arranca sem dó as camadas externas de nossas defesas e deixa o humano cru, vulnerável e nu. É aqui que se vislumbra a alma de um indivíduo. Cada insegurança e falha de caráter fica aberta e exposta para todo mundo ver. Nenhuma comunicação é mais real, nenhuma expressão é mais honesta. Não sobra nada para esconder. A maratona é o grande equalizador. Cada movimento, cada palavra pronunciada e não pronunciada é verdade radiante. O véu foi removido. Esses são os momentos intensos da interação humana, para os quais eu vivo”.

Para saber mais sobre os livros e sobre os projetos de Dean Karnazes (em inglês), acesse o blog na Runner’s World ou seu site oficial.

Foto: Runner’s World

Dia da Enfermagem

12 de Maio, dia do nascimento de Florence Nightingale. Hoje começa a semana da Enfermagem no Brasil e em vários países do mundo. É dia de festa e de comemorações em hospitais e faculdades. Começam cursos e mesas redondas dos mais váriados tipos. Para mim, é uma semana para refletir sobre a profissão que escolhi. É tão difícil e ao mesmo tempo tão gratificante ser enfermeiro. Temos muitas responsabilidades e ainda existem tantas pessoas que não valorizam o nosso trabalho! Alguns pacientes nos desejam mil felicidades e agradecem a cada palavra e procedimento. Outros nos tratam mal e só faltam partir para a agressão física. A sensibilidade fica a flor da pele. Vemos a vida e a morte tão de perto. Quantas vezes não vemos pacientes com prognósticos ruins melhorarem? Quantas vezes não puxamos o carro de emergência para a beira de um leito e somos surpreendidos? Também presenciamos perdas inesperadas e para mim, nunca fica mais fácil. Alguns dizem que tem que se tornar frio para ser um bom enfermeiro. Pois para mim, ser sensível não diminui minha habilidade técnica.  O cotidiano hospitalar é corrido, é suado, é frustrante às vezes. Mas também é cheio de sorrisos e de superação. Parabéns a todos os profissionais da enfermagem!