Parada

Um dia comum. Atribulado. Corrido. Visitar pacientes, resolver pendências, orientar pessoas. Encaminhar exames, cobrar resultados, esquecer de comer. Sorrir. Respirar.

Aí vem o grito. Pensa rápido. Parada cardíaca. Encontrar o médico. Aonde está o médico? Aonde está o pulso? Puxar o carrinho. Retirar o familiar do quarto. Encontrar alguém para acalmar o familiar. Ligar o desfibrilador. Colocar oxigênio. Iniciar massagens cardíacas. Agora o quarto está cheio. Tem barulho, muita coisa acontecendo. Aspirar adrenalina. Marcar os minutos. Olha o monitor. Médico intuba. Não para a massagem. Afastar. Choque. ele voltou. Vaga na UTI. Parar o elevador. Levar para a UTI. Arrumar papéis. Chamar a família. Passar plantão. Bater o cartão, sair pelo portão.

PCR

Chega o silêncio. A dor no corpo. Entro no carro e choro. Choro revendo todos os momentos, cada passo. O que foi bom, o que pode melhorar, o que tem que melhorar. Quem sou eu para viver esse tipo de emoção?

Depois de 8 anos cuidando de pessoas, eu já vivi muitos momentos de tensão, alegria e tristeza. Em muitos momentos eu não entendo como fui parar ali. Mas em outros, eu sei que é exatamente aonde eu deveria estar, é o que eu sei fazer e é a maneira que eu encontrei para crescer como pessoa e como profissional.

Estrela

Hoje a saudade bateu forte. Como um soco no estômago. Saudade de cantar o pinheirinho de Natal e queimar os dedos segurando as velas acesas. Saudade das rabanadas fresquinhas. De buscar cascas de árvores para enfeitar o presépio. Do sino tocando, nos avisando que o almoço está pronto. De você me pedir para ler aquele versículo alto, para toda a família ouvir, mesmo sabendo que eu morria de vergonha. De ouvir os cantos gregorianos. De andar pela cidade dizendo o nome de cada uma das árvores que encontrávamos pelo caminho. Das suas danças estilo Carmem Miranda. Do vinhozinho de cada dia. Dos verões em Itapoã. De você dizer “Feliz de você que tem uma vó para te dizer isso…”

voeju

Tantas vezes, você cuidou de mim. Das doenças de criança, dos aborrecimentos de adolescente. Das dúvidas de jovem adulta. Da sua maneira, você me ensinou tanto sobre a vida! Mais tarde, eu também cuidei de você. E agora, a Estrela mais brilhante é você.

A herança mais cara, mais rara, você deixou pra mim. Foi exemplo de mulher forte, guerreira, que sabe o que quer. Que não fica parada. Que faz, corre e luta para ser feliz.

A elegância, gentileza e sabedoria. O gosto pela música e arte. A educação e empatia. Isso não tem fortuna no mundo que pague. Afinal, a saudade é o amor que fica¹. Que quando não cabe mais no coração escorre pelos olhos². Eu espero um dia, poder ser exemplo para a minha família como você foi para mim.

¹ Dr Rogério Brandão

² Bob Marley

Fada Madrinha

Ela queria um plano, um caminho. A Fada Madrinha das histórias infantis. Um ser encantado, com uma varinha de condão e pó de pirlimpimpim. Assim poderia voar para a Terra do Nunca e viver de aventuras. As roupas seriam novas e brilhantes. Os sonhos, realidade. O medo não existiria mais. Mágico pensar assim, não?

Fauna, Flora e Primavera

Fauna Flora e Primavera

Fada Madrinha - Cinderela

Fada Madrinha e Cinderela

Lembra quando a Fada Azul disse que o Pinóquio seria um menino de verdade? Era o maior sonho da vida dele! Tudo o que ele mais queria no mundo…

Descobrir os sonhos e desejos verdadeiros. Valorizar a própria essência. Ela consegue ver essa parte. Consegue, quase, não se importar com as opiniões alheias.

Tá certo, poderia ser apenas uma pessoa, de carne e osso, alguém atencioso e disposto o bastante para ensinar, proteger e guiar neste caminho. Segurar na mão durante a turbulência. Alguém aí se habilita a patrocinar minha ida para a Europa? Aquele violão perfeito? Ou o curso de Francês?

Não, o mundo prega independência. É cada um por si. Falta espaço para Fadas Madrinhas.

Você será um menino de verdade!

Você será um menino de verdade!

Talvez estas histórias existam principalmente para nos lembrar de olhar e ouvir a nós mesmos. Buscar força, resiliência, aquela capacidade de recuperar o equilíbrio após momentos de dificuldade, mesmo que seja num cantinho escondido da alma.

Sininho

Sininho

Sobre a morte e o morrer

A morte do Robin Williams no mês passado foi uma notícia chocante. Eu tinha acabado de entrar em um hotel em Salvador quando vi a notícia. Pensei muito sobre o assunto e resolvi escrever. Como uma pessoa que fazia todo mundo rir, que parecia tão alto astral pode ter chegado a esse fim?

O suicídio é algo perturbador, assustador e controverso. Já tive muitas experiências com este assunto e cedo na minha vida. Perdi duas amigas dessa forma quando ainda estava na escola. Também perdi dois familiares.

Todas as vezes me fiz as mesmas perguntas. Como podemos estar ao lado de alguém diariamente e não perceber que aquela pessoa está sofrendo tanto? Como podemos deixar de olhar apenas para nós mesmos e realmente ajudar alguém?

Me tornei enfermeira e na minha profissão também me deparei com situações tensas. Percebo que no mundo atual, cheio de tecnologia e redes sociais é mais importante ser feliz online do que na vida real. Cada pessoa tem uma personalidade e uma maneira de lidar com as situações da vida. Provavelmente não conhecemos ninguém a ponto de realmente entender as dores daquela pessoa, mesmo se falarmos de alguém próximo. Sim, o sofrimento nos faz crescer e aprender a viver. Mas pedir ajuda, seja pedir um ombro amigo para chorar num momento de angústia ou procurar um profissional, estas atitudes podem trazer tranquilidade.

Eu não tenho respostas para nada. Tento ser gentil com um sorriso, uma mensagem ou assando biscoitos. Espero que a vida seja mais do que curtidas na internet. Espero que sejam abraços e memórias na vida real.

Roda Gigante

Roda gigante. Um dia lá em cima, com a clara visão do horizonte. No outro bem embaixo, de cara na poeira. Quem liga para o sentido que roda? Cada um percebe o seu próprio momento. Apenas você, que sente o movimento, o frio na barriga e a náusea da descida.

Paciência. As minhocas da cabeça vão embora. Pássaros voltarão a cantar bonito lá fora. O tempo cura. Bobagem. E quando este tempo simplesmente não passa? Quando a única companhia é você mesmo e os seus pensamentos?

Foto: internet

Foto: internet

Aqueles sonhos no fundo da gaveta. E o desanimo que te impede de andar para a frente.

A névoa de hoje dificulta a visão. Mas o coração sabe que tudo tem prazo de validade. Não existe constância neste sentimento. Não é definitivo. A roda gigante vai girar, os lugares vão mudar e isso também vai passar.

Para Amy

Relutei muito para escrever esse post. Não queria entrar na onda falar da Amy depois da morte dela. O que me levou a escrever foi ver o que as pessoas estão fazendo com elas mesmas.

No meu trabalho diário, como enfermeira, vejo muita gente morrer, se contorcer de dor e passar por cirurgias enormes e perigosas devido a hábitos que elas mesmas escolheram. Sim, existem problemas genéticos e acidentes, mas na maioria, somos nós os responsáveis pelos males que inflingimos ao nosso corpo. Não consigo entender o que leva alguém a fumar. Entendo que dê prazer e tudo, mas ficar cheirando a cinzeiro me incomoda profundamente. Sobre o álcool, acho difícil usar em excesso algo que te tira tanto do eixo, mas talvez a graça seja justamente essa. E para completar ainda temos estresse, sedentarismo, obesidade…

Admiro a música da srta Winehouse. Mas confesso que tinha vontade de segurar na mão dela e levá-la para comer uma torta, praticar um esporte ou coisa parecida. Sim, meus vícios são dos mais bobos. Não quero me fazer de correta e nem julgar ninguém. Só acho que devemos pensar na vida de uma forma que nos possibilite assumir a nossa parte da culpa pelos nossos próprios problemas e pensar sobre o que queremos e esperamos para o futuro do nosso ser, do nosso corpo físico. Gosto muito daquela propaganda de margarina que diz que se pudéssemos ver nosso coração, talvez cuidássemos melhor dele.

Dia Internacional da Mulher

08 de março. Uma data cheia de significados. De revolução, de luta, de força de vontade. um dia de ser paparicada, de receber flores e palavras bonitas. No hospital onde trabalho, sempre somos mimadas no Dia da Mulher. Já ganhamos brincos, chocolates e sempre um cartãozinho com um recado especial. E olha que na enfermagem somos muitas! Somos responsáveis por Clínicas, UTIs, Emergências… Temos 30, 40 pacientes em um único dia! Precisamos fazer os curativos, abrir as prescrições, encontrar o médico que esqueceu de deixar o atestado, conversar com a família, tranquilizar o paciente, sorrir e explicar calmamente as rotinas do setor para aqueles mais mal educados… Isso são apenas detalhes da minha profissão. Sei que existem tantas outras guerreiras por aí que trabalham nas mais diversas áreas e encaram tantos desafios, até maiores do que os meus!  Acho muito gratificante ser reconhecida e admirada, mesmo que isso seja mais explícito apenas em um dia do ano.

Hoje, devemos olhar as mulheres da nossa vida, sejam mães, esposas, irmãs, amigas, não importa o papel desempenhado naquele momento. Devemos apenas perceber o quanto essas mulheres trazem delicadeza, determinação, alegria e amor às nossas vidas. Apesar de nossos defeitos e minhocas na cabeça, acho que um mundo sem as mulheres seria bastante cinza e racional demais. Os desafios vão continuar. As conquistas também.  Feliz Dia da Mulher!