Estrela

Hoje a saudade bateu forte. Como um soco no estômago. Saudade de cantar o pinheirinho de Natal e queimar os dedos segurando as velas acesas. Saudade das rabanadas fresquinhas. De buscar cascas de árvores para enfeitar o presépio. Do sino tocando, nos avisando que o almoço está pronto. De você me pedir para ler aquele versículo alto, para toda a família ouvir, mesmo sabendo que eu morria de vergonha. De ouvir os cantos gregorianos. De andar pela cidade dizendo o nome de cada uma das árvores que encontrávamos pelo caminho. Das suas danças estilo Carmem Miranda. Do vinhozinho de cada dia. Dos verões em Itapoã. De você dizer “Feliz de você que tem uma vó para te dizer isso…”

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Tantas vezes, você cuidou de mim. Das doenças de criança, dos aborrecimentos de adolescente. Das dúvidas de jovem adulta. Da sua maneira, você me ensinou tanto sobre a vida! Mais tarde, eu também cuidei de você. E agora, a Estrela mais brilhante é você.

A herança mais cara, mais rara, você deixou pra mim. Foi exemplo de mulher forte, guerreira, que sabe o que quer. Que não fica parada. Que faz, corre e luta para ser feliz.

A elegância, gentileza e sabedoria. O gosto pela música e arte. A educação e empatia. Isso não tem fortuna no mundo que pague. Afinal, a saudade é o amor que fica¹. Que quando não cabe mais no coração escorre pelos olhos². Eu espero um dia, poder ser exemplo para a minha família como você foi para mim.

¹ Dr Rogério Brandão

² Bob Marley

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O parque

Naquele parque ela caiu. Correu, pulou. Foi a polícia. Foi o ladrão. Várias vezes sangrou, chorou e até quis fugir. Naquele parque ela enfrentou as primeiras experiências e pressões do mundo de criança: o medo de altura ao subir naquele brinquedo, o bullying do grandalhão que não sabia dividir, o buraco na cerca e o balanço quebrado.

Ali, ela aprendeu sobre equilíbrio, força e perseverança. Viu que podia corre, saltar, até plantar bananeira se quisesse. Sentiu que podia subir mais alto e aproveitar o passeio. Ela se sentia em casa.

O caminho, as pessoas, até as formigas e folhas no chão eram especiais, eram dela. Cada pedacinho, cada melindre era conhecido e motivo de orgulho para a menina.

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Acontece que o tempo passa e a vida muda. Ela precisou escolher outro caminho e, mesmo sem querer, teve que se despedir do parque.

Novamente, o mundo girou. E tempos depois, ela se viu ali, olhando de longe para o seu amado parque.

Desta vez, o portão estava trancado. Ela já não era bem vinda ali. Os brinquedos não lhe serviam mais. As crianças que pareciam amigas, agora lhe deram as costas. Até mesmo as formigas tentaram lhe beliscar os pés.

Ela chorou. De soluçar. Viveu a perda de um tempo que lhe era de ouro. Tentou encontrar motivos para tanta indiferença. Não encontrou.

Então ela se levantou. Aproveitou as oportunidades. E cresceu. Agora ela pode construir seu próprio parque de diversões.