Espelho

Ela se olha no espelho. Se arruma para uma vida que não é a sua. A pele perfeita. Com olhos de gato e cílios de boneca. O cabelo se ajeita em um rabo alto onde os poucos fios brancos cintilam. Calças bem cortadas e saltos, altos, pretos, brilhando. Ela é uma mulher de sapatilhas, não de saltos, pensa. Mas a vida é repleta de obrigações como as de hoje.

Bom dia e um sorriso. A conversa de elevador que será esquecida ao cruzar pela porta. Trânsito, suor e barulho.

Ela chega ao seu destino. A senhora que deveria encontra-la não. A espera é longa e tensa. Vai dar certo, não vai dar certo. Sou ótima nisso. Odeio isso. E se… a confusão de ideias e valores que rondam uma cabeça cheia de minhocas.

Desisto. Pensou ela. Até que a secretária chega com um recado. Mudança de local, mas o encontro está marcado.

Uma correria para chegar a um lugar desconhecido. Uma obra transforma o caminho em um emaranhado de poeira, brita e piche. Mas ela chega, bem a tempo.

No castelo de cinema lhe oferecem uma taça com água. Os sabiás ao fundo parecem conhecer a sua história.

Começa a conversa. Faça isso, não faça aquilo. Você pode? Você consegue? Como se responsabilizar por algo tão estranho? O mundo não gira ao redor de ninguém. Temos que girar em volta dele. As palavras do homem com o chapéu alto ressoam na mente dela.

Por fora, apenas sorrisos e abraços desconfortáveis. A espera recomeça. Mas os pés podem voltar a pisar o chão.

Foto: Reprodução da Internet

Foto: Reprodução da Internet

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