Cheguei em São Paulo cheia de expectativas e medos. A começar pelo avião que não é um meio de transporte que me agrada muito… depois a cidade enorme e desconhecida que me esperava. Me senti bem em meio aos prédios enormes e todas aquelas pessoas que parecem correr o tempo todo! Me surpreendi com a simpatia e com a facilidade que senti em andar pela cidade. A noite, mais um medo: os plantões noturnos! Chegando no estágio, a professora era muito tranquila e após algumas explicações ela perguntou quem gostaria de começar com os partos. Não pensei duas vezes e quando me vi, já estava paramentada esperando o bebê nascer. Parece que não durou nem um minuto e ela estava nas minhas mãos. O cordão umbilical dava uma volta no pescoço. Eu apenas deslizei o cordão pelo meu dedo e pronto, tudo certo. Era uma menina! Foi um momento de muita emoção e felicidade. Achei que eu fosse chorar também. Me senti uma enfermeira obstetra pela primeira vez.
Mais tarde, já de madrugada, fiz meu segundo parto. Desta vez, era um menino. Também não demorou nada e a mãe era de uma calma muito tranquilizadora. Já estava amanhecendo e eu precisava descansar um pouco antes de sair para conhecer a cidade.

Foto: enfermary.blogspot.com
Pré parto. Antes do estágio fiquei com a cabeça a mil, pensando que ia ter várias pacientes e muito trabalho. Chegando lá, foi bem diferente. A maternidade era muito pequena e havia apenas uma mulher em trabalho de parto. Eram 8 da manhã e a dilatação era mínima. Conversamos com ela e ficamos sabendo que não era seu primeiro filho. Um grande sorriso apareceu no meu rosto, achei que o parto seria bem tranquilo. Os médicos resolveram esperar e induzir o parto. Ficamos a manhã toda com ela. Meu plantão acabou e nada do bebê nascer!
No outro dia, fui toda animada conhecer o bebê. Perguntei como foi o parto e ela disse que foi muito difícil e demorado. então ela fez um comentário: “Ainda bem que tinham dois médicos, porque se fosse só a enfermeira ia ser chato, né?” Aquelas palavras mais pareciam um grande e barulhento tapa cara.
Só mais tarde fomos conversar melhor e entender o porque daquela colocação. Depois que eu e minha turma saímos da maternidade, aquela mulher ficou sozinha, sentindo dor e esperando. Esperando sem nem ter uma idéia de quanto tempo mais ela ia ficar ali, sem atenção ou um rosto familiar.
O que eu senti não foi nada perto do que aquela e tantas outras mulheres passam diariamente, em tantos hospitais diferentes. E o pior, existem cada vez mais profissionais que não ligam a mínima pra isso. Precisamos repensar todos os dias as escolhas que fazemos. E mesmo que existam tantas dificuldades no nosso trabalho, é preciso pensar que cuidamos de pessoas que precisam de muito mais do que simplesmente remédios e procedimentos de nome difícil. Elas precisam de respeito, carinho e atenção.